Flávio Carneiro
Trecho
Obra
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A casa dos relógios

São Paulo
FTD, 1999. 78 p.

Era uma casa meio esquisita. Quem entrasse nela pela primeira vez pensava que estava entrando num relojoaria. Era abrir a porta e ver em cada canto um relógio: em cima da mesinha
A casa dos relógios
de centro tinha um em forma de jarro, cheio de flores de plástico, e sobre a televisão um que tocava uma musiquinha na hora da novela, outra na hora do jornal, outra na hora do jogo. A parede da sala então, nem te conto, era uma festa. Tinha vinte e quatro tipos de cuco, sintonizados de tal maneira que a cada hora saía da caixinha um cuco diferente, cantando cada qual lá do seu jeito. Sempre que chegava visita, o dono da casa, Doutor Bartolomeu, dizia:
- Ah, essa parede é meu tesouro, foram anos e anos de trabalho... meu tesouro...
A esposa do Doutor Bartolomeu, por sua vez, tinha cinco relógios de pulso em cada braço, cada um marcando a hora de determinada cidade do planeta. Quando faltava assunto pra conversa, ela dizia, pra quem estivesse por perto, uma frase do tipo:
- Sabe que horas são em Bombaim? Não? Pois são exatamente doze e trinta e sete, mais doze segundos.
E depois se calava, toda orgulhosa.
Vasta e variada a coleção do Doutor Bartolomeu. Dela faziam parte desde os relógios modernos, nacionais e importados, até os mais antigos, adquiridos ao longo de vários anos de visitas a antiquários.
Havia um quarto, por exemplo, só com relógios de pêndulo. Noutros cômodos da casa, o Doutor guardava cento e cinqüenta e oito tipos diferentes de relógio de cristal de quartzo, dezenas de relógios d'água vindos dos mais diversos países, ampulhetas de quinze formatos diferentes e uma infinidade de relógios de bolso, de parede, de pulso, além de alguns raríssimos modelos de relógios de sol.
Num cantinho especial da casa, trancadas numa prateleira a que só o Doutor tinha acesso - nem mesmo a esposa possuía a chave -, estavam guardadas miniaturas perfeitas dos mais famosos relógios de torre de todo o mundo.
A vida do casal girava ao redor desses aparelhinhos de marcar o tempo. Era uma tradição de família, que remontava a séculos e séculos atrás. Aquela era uma casa preciosa, sem dúvida, e aqueles relógios todos deviam valer uma fortuna. Mas era uma casa meio esquisita.
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